“Tenho
um pouco de medo:
medo
ainda de me entregar pois o próximo instante é o desconhecido”
De facto, é escusado dizer que a realidade
hoje é outra e que o nosso dia-a-dia está repleto de surpresas e de
transformações. Contudo, convenhamos também ventilar que, qualquer mudança
suscita interrogação e semeia desconfiança. Na mesma linha do que dissemos
anteriormente, o receio do desconhecido combina com comodismo e qualquer
tentativa de quebrar este paradigma é, na verdade, precocemente aniquilada. A
sociedade vive e sobrevive, mas de mutações forçadas.
Desde a sua tenra existência, o homem
procurou incessantemente mecanismos que lhe permitisse garantir a sua
sobrevivência e a continuação de sua espécie, mantendo relações com os seus
semelhantes, primeiro sedentarizando-se, depois criando pequenos aglomerados,
alargando-se por uma comunidade e, por fim, estendendo-se em uma civilização.
Assim, o conceito de comunidade tem acompanhado a sociedade deste o princípio, “mas foi com a
Internet e a www, que ela pode ser difundida para além dos espaços
físicos/geográficos. Esses novos espaços – o ciberespaço -, têm como
característica marcante a virtualidade, o que possibilita que as pessoas estabeleçam
vínculos sociais sem necessariamente estarem ligados fisicamente”. (Lisbôa
e Coutinho, 2011, p.3). Para muitos autores, a Comunicação Mediada por
Computador está influenciando a sociedade, mudando o estilo de vida das
pessoas, redefinindo o conceito de comunidade, ou seja, consentindo o
nascimento de um novo ambiente de interacção social. “Por isso, muitos
optaram por definir as novas comunidades, surgidas no seio da CMC por
“comunidades virtuais”. (Rheingold, 1996; Palacios, 1998; Donath, 1999; Smith,
1999; Wellman e Gulia, 1999; Paccagnella, 1997 Citados por Recuero, 2001,
online). Para esta autora, “Comunidade Virtual
seria o termo utilizado para os agrupamentos humanos que surgem no ciberespaço,
através da comunicação mediada pelas redes de computadores (CMC) ”. Dai
que, discursos são produzidos e reproduzidos de que a Comunicação Mediada por
Computador trouxe consigo, e por arrasto, alguns conceitos novos, tais como
“presenciabilidade”,“virtualidade”, “ciberespaço”, gerando desconforto e uma dose
muito grande de apatia. E, mais uma vez, e na maioria delas, o conceito de algo
que é novo é enodoado pela especulação, provas dadas por Bruno Júlio (2005,
p.3) quando afirma: “Os mundos mediados
por computador vão trazer à linguagem uma fraca credibilidade no que respeita à
identificação da sua fonte, abrindo aqui espaço para o aparecimento de
Identidades mutáveis, falsas, dispersas pelo ciberespaço”. Ou ainda, o
discurso fabricado por Raquel Consorte (2007, p.151) que assume uma posição
mais extrema:
“O mundo virtual tornou-se, em parte, um
mundo paralelo ao real, com características próprias e específicas. O termo
virtual nos remete a irrealidade, um mundo abstrato e intangível. Sem limites
de tempo, espaço e possibilidades. Onde os indivíduos que dele se utilizam
possuem a nítida sensação de liberdade e, até mesmo, de impunidade” Se de um
lado o uso da rede facilita a prática de atos ilícitos, de outro dificulta a
identificação de quem o pratica e, por conseguinte, o impedimento de suas ações
criminosas e devida punição. Na atualidade, é incabível ignorar que o acesso a
todas as facilidades oferecidas pela rede mundial de comunicação não sejam
utilizadas por terroristas no processo de planejamento e execução de suas
ações. Se não é possível erradicar as ações terroristas deve-se buscar, ao
menos neutralizá-la”.
O filósofo tunesino Pierre Levy, especialista na área da cibernética e da inteligência artificial e defensor
acérrimo da comunicação mediada, contrapõe estes argumentos e sem muito esforço
apercebemo-nos de que estes discursos foram radicalizando, depois das
tecnologias virtuais passaram a fazer parte de nossa convivência, precisamente
neste início do século XXI. De acordo com este pensador, não se pode esconder o
facto de que o mundo está consumido pelas tecnologias da comunicação, desde as
últimas décadas do século XX. É só olharmos a forma “como ele se relaciona,
como move sua
economia, sua política, sua arte, sua sabedoria e sua espiritualidade, para ver
que, em tudo, os processos técnicos de comunicação estão se adentrando”.
Continua dizendo que na maioria das áreas de trabalho, quase que é
indispensável esta tecnologia, “pois a técnica já se
constitui como um elemento essencial na construção de conhecimentos e
relacionamentos que vêm mudando completamente a maneira de as pessoas pensarem,
de se comunicarem, de conviverem umas com as outras e com o mundo”. (Lévy,
2001, online). Ainda continuando a escorrer na mesma linha, Lévy afirma que por
causa no desconhecimento da própria realidade em que se vivem, confrontado com
aceleradas mudanças e inúmeras interrogações, muitos “preferem abraçar as
críticas sobre a técnica, nascidas do medo e da ignorância, do que investir em
estudos para conhecer o que se passa”. (1993, online). Portanto, os
discursos sombrios que ofuscam a grandeza implícita na imensidão de
conhecimentos que as tecnologias proporcionam, merecem ser repensados,
reconfigurados e formatados á altura do estado actual das coisas. É assim que o
autor descreve tal situação:
“O cúmulo da cegueira é atingido quando as
antigas técnicas são declaradas culturais e impregnadas de valores, enquanto
que as novas são denunciadas como bárbaras e contrárias à vida. Alguém que
condena a informática não pensaria nunca em criticar a impressão e menos ainda
a escrita. Isso, porque a impressão e a escrita (que são técnicas!) o
constituem em demasia para que ele pense em apontá-las como estrangeiras. Não
percebe que sua maneira de pensar, de comunicar-se com seus semelhantes, e
mesmo de acreditar em Deus é condicionada por processos materiais” (Lévy, 1993,
online)
Mas os críticos de Lévy não cessam de
censurá-lo, apelidando-o de ilusionista. Por exemplo, Pellanda afirma que Lévy
é “para os
conservadores, um fantasma indesejado e temido”. Para Rüdiger,um
crítico da cibercultura, conceito originário de Levy, este é “um ingénuo otimista
por assumir as pretensas benesses do progresso tecnológico como suporte para
uma fé cega nos destinos prósperos dos seres humanos”. Para o filósofo
francês Paul Virilio, Lévy é o “guru da Internet, que
favoreceu arrastar para o terreno do delírio, um delírio de interpretação
nefasto a respeito da cibernética e temas adjacentes” (Rudiger e Virílio,
2005 citado por Zwarg, 2005, online).
Em momentos de grandes mudanças, o novo e o
velho confundem-se e enquanto não se achar um meio-termo, as posições ora são
extremistas ou são irrealistas. As opiniões são basicamente construídas á base
de valores. Mas Lévy refuta seus críticos e continua firme num discurso
positivista. Diz que “diante deste contexto
de revolução e indeterminação, de novidade e de incerteza, de mudança e de
medo, é de suma importância elaborar estudos que visam o entendimento e o
esclarecimento do momento actual, para, a partir daí, nele se posicionar e até
propor um rumo para a humanidade caminhar”. (Lévy, 2000, online). Assim,
segundo o autor:
“Devemos aceitá-lo como nova condição. Temos
que ensinar nossos filhos a nadar, a flutuar, talvez a navegar” nessa nova onda
de vida, Acreditando que por meio da informática, há a possibilidade de uma
nova maneira de construir o desenvolvimento das pessoas e da sociedade. Esse
ciberespaço produzido pela coletividade humana não é somente uma rede de
conversas on-line, mas é, na verdade, um reconhecimento das competências
pessoais de cada indivíduo, isto é, a possibilidade de um novo sistema de
validação de competências pessoais. Enfim, é a construção de um novo humanismo.
O receio do novo é absolutamente natural.
Assustador é não consciencializar que o novo tornar-se- á velho e o presente
que parece confuso será um passado que se recorda, pela boa ou pela má
experiencia que foi eventualmente vivenciado. É neste eterno ciclo de certezas
e incertezas que construímos as bases do amanhã e de que a civilização se
constrói e reconstrói. Se, de facto, o mundo virtual, definitivamente
irreversível, já convive connosco numa sã relação, então, como disse Sherry
Turkle (1997) citada por Júlio (2005, p.16), “Não temos que rejeitar a vida
no ecrã, mas também não temos que tratá-la como uma vida alternativa. Podemos
usá-la como espaço de crescimento”.Porque, não está na rejeição do novo,
nem no exclusivismo do velho, o primado da manutenção da nossa espécie enquanto
homens, nem tão pouco a alegria de desfrutarmos as surpresas e particularidades
que cada momento da história arquiva. Ou, como bem disse (Mendonça, 2009,
p.31).” É neste
cenário de inovações aceleradas, mudanças contínuas e aprendizado permanente
que nos é dado viver, e é aqui e agora, diante das questões que nos são
colocadas cotidianamente, que reivindicamos nossa condição de atores e sujeitos
de nossa própria história no mundo, nos posicionando no centro do conhecimento
e da acção”.
[1]
Escritora e Jornalista brasileira

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