Num segundo momento de nossa pesquisa fomos procurar o que a literatura tem dito sobre a importancia da comunicação mediada por computador numa era onde as tecnologias são o motor de desenvolvimento de toda a sociedade repercutindo directamente na nova forma como aprendemos e ensinamos.
Comunicação Mediada por Computador: sobrevoando um percurso
“ […] a ausência de pistas visuais e de linguagem não verbal fazia com que a comunicação mediada por computador fosse vista como um parente pobre da comunicação face-a-face pouco susceptível de poder suportar ambientes com fortes exigências ao nível da interacção social”. (Quintas-Mendes, Morgado & Amante, 2010, p.25.)
Extremamente célere, diversificado e
complexo. É assim que adjectivamos o percurso feito pelas redes de comunicação
nestes últimos vinte anos. A capacidade inata do homem quanto à sua natureza
comunicacional ultrapassa todas as fronteiras, ludibriando o impossível, para
buscar nas descobertas e invenções, mecanismos que lhe permite assegurar a sua
auto-realização firmada na interacção com os demais. Pela inigualável
importância que desempenha em nossa vida, o surgimento do computador e as
múltiplas aplicações que dela se vai germinando, tem constituído, em nosso
dias, um assunto muito interessante e pertinente, somando avolumadas
bibliografias de especialistas que exploram as suas incalculáveis
potencialidades em todas as vertentes e ao pormenor. De facto, desde o seu
surgimento, o computador tem assumido, inequivocamente, um lugar de destaque no
palco das transformações que se ocorrem em todos os domínios. Contudo, esta
conquista não é nem recente nem casual. É sim, o desembocar de uma árdua e
profunda diligência do homem na permanente busca de desenvolver instrumentos
que lhe possibilitasse, em todos os aspectos, melhorar a sua qualidade de vida
e remonta a antiguidade. A invenção da primeira máquina de contar, o ábaco, há
mais de 5.000 anos atrás permitiu, sem dúvida, revolucionar o cálculo e
assentar as basses para que se desse o primeiro passo na evolução da história
de processamento de dados. Pelo que, do ábaco à calculadora de Pascal, da
máquina analítica de Babbage ao primeiro computador eléctrico de Konrad Zuse,
da ENIAC de trinta toneladas ao Ipad3 da Apple com menos de dois quilogramas,
árduas e controversas páginas foram escritas.
De todo modo, ao centrarmos nossa atenção
nestas últimas cinco décadas, as pesquisas nos dão conta de que o computador
foi inicialmente criado com o propósito de ajudar o homem na feitura de
cálculos considerados complexos. De facto, devido á sua rapidez e precisão, quando
os primeiros computadores digitais surgiram, a ideia que se vincou era de uma
máquina para cálculo e a primeira rede operacional de computadores desenvolvida
nos finais de 1969, (a Arpanet) não foi projectada para troca de mensagens
entre pessoas. Seu objectivo inicial era de desenvolver uma rede de comunicação
que permitisse a transmissão de dados. Entretanto, com o avanço tecnológico, o
crescimento da rede veio a modificar completamente a forma como as pessoas a
utilizavam, abrindo espaços para troca de arquivos de
programas e dados de usuários de um mesmo computador e foi assim que se
apercebeu da grande potencialidade que este recurso tem para armazenar e trocar
mensagens. (Oeiras e Rocha, 2000, p.2). Assim, não será demais afirmar que
Outubro de 1969 ficará eternizado, por ser a data em que se estabeleceu o
primeiro diálogo entre dois computadores remotos. Na sua tese de doutoramento,
intitulado“Docência Online: comunicação mediada por computadores em rede na
prática docente”, Alzino Mendonça (2009, p.27.) deixou-nos um fragmento deste
simples diálogo, protagonizado entre duas pessoas, uma delas no Instituto de
Pesquisa da Universidade de Stanford e a outra na Universidade da Califórnia,
em Los Angeles:
Lá vai... chegou um L?
- Chegou
- Chegou um O?
- Chegou
- Droga! Emperrou!
- É, aqui também.
“Com o desenvolvimento das redes, o
computador passou a ser utilizado também como meio de comunicação. Esse uso se
justifica pelo fato que é da natureza humana a necessidade que pessoas têm em
se comunicar e que elas são altamente motivadas a interagir qualquer que seja o
meio disponível. Um estímulo para usar o computador é que esse recurso permite
novas maneiras de manipular e comunicar todos os tipos de informação e em
vários tipos de mídia (texto, áudio, vídeo). Hoje, com a popularização da
Internet, milhares de pessoas se comunicam através de correio electrónico (e-mail),
fóruns (newsgroup), videoconferência, bate-papo (chat), listas de discussão
dentre outras modalidades. Cada uma delas pode ser implementada com interfaces
totalmente distintas. Isto muitas vezes depende principalmente de factores como
público-alvo e o uso pretendido para a ferramenta”.
Dito de outra forma, a sociedade em rede na
qual nos integramos hoje, tem-nos proporcionado uma miríade de escolhas no
tocante aos meios de comunicação a utilizar, e, em boa verdade, cada um com as
suas particularidades e potencialidades. Como disse Ruivo e Mesquita (2010,
p.202) “não será
demais afirmarmos que vivemos nesta primeira década do seculo XXI, um grande
movimento de turbulência”. A revolução científica e tecnológica,
principalmente a evolução das tecnologias de informação e comunicação tem
revolucionado definitivamente o nosso modo de vida, as nossas formas de
interagir, de socializar e de aprender, e não temos que escamotear a realidade.
O nosso mundo mudou e com ele mudou também o nosso estilo de vida. “Graças ao
desenvolvimento das modernas redes de comunicação actualmente é possível
manter, em tempo real, diálogos com imagem e som com pessoas de diversas partes
do planeta. Até algumas décadas tal avanço era inimaginável”. (Figueiredo e
Silva, 2012, p.2). Na esteira do sociólogo espanhol Manuel Castells (1999)
citado por Mendonça (2009, p.29),
“Um novo sistema de comunicação que fala cada
vez mais uma língua universal digital tanto está promovendo a integração global
da produção e distribuição de palavras, sons e imagens de nossa cultura como
personalizando-os ao gosto das identidades e humores dos indivíduos. As redes
interactivas de computadores estão crescendo exponencialmente, criando novas
formas e canais de comunicação, moldando a vida e, ao mesmo tempo, sendo
moldadas por ela”.
Mas, falar de comunicação mediada por
computadores, implica posicionar-nos num tempo mais recente, porque
efectivamente só a partir dos meados da década de 90 é que o vasto público teve
acesso ao maior conglomerado de redes de comunicação do mundo, a internet.
Unindo mundos e pessoas, arrebentando fronteiras, ela proporcionou as assas
para que a famosa e frenética frase do filosofo Sócrates “eu sou um cidadão,
não de Atenas ou da Grécia, mas do mundo” passasse de mera ideologia, para
efectivamente ter sentido no campo do real e nas práticas cotidianas de homens
de toda a sorte. Dai que, falar de comunicação mediada por computador,
pressupõe á partida, a existência de duas pessoas que, através da transmissão
de dados em uma rede de computadores, se comunicam tendo a internet como a
espinha dorsal de toda a ligação. Como sendo, uma comunicação interpessoal, tem
incorporado um conjunto diverso de aplicações que promove uma comunicação em
teia, ou seja, de um para um, um para muitos e muitos para muitos,
possibilitando sobretudo que haja uma interacção rápida e eficiente entre
indivíduos ou grupo de indivíduos que se encontram fisicamente distantes.
Na verdade, uma das grandes potencialidades
da comunicação mediada por computador é o facto de permitir que se encurtasse
as assimetrias geográficas e culturais num mundo que ganhou força colectiva com
a chamada “a era da globalização”. Para Ruivo e Mesquita (2010, p.202), Este
fenómeno mundial e recente, “teve impulso com a
evolução tecnológica no domínio da comunicação o que implicou que as economias
deixassem de depender directamente de um único local de produção e distribuição
dos bens e se constituíssem redes de produção e distribuição sem fronteiras de
qualquer natureza”. Na verdade, a revolução tecnológica, através da
comunicação mediada por computador, inaugurou uma nova prateleira de
oportunidades e esfriou a lareira das desigualdades sociais. A redefinição dos
conceitos de espaço e de tempo devem ser esclarecidos á luz desta nova
abordagem comunicacional, pelo que, na perspectiva de Thompson (2008) citado
por Mendonça (2009, p.29),
“ [...] o desenvolvimento dos meios de
comunicação cria novas formas de acção e de interacção e novos tipos
de relacionamento sociais – formas que são bastante diferentes das que tinham
prevalecido durante a maior parte da história humana. Ele faz surgir uma
complexa reorganização de padrões de interacção humana através do espaço e do
tempo. Com o desenvolvimento dos meios de comunicação, a interacção se dissocia
do ambiente físico, de tal maneira que os indivíduos podem interagir uns com os
outros ainda que não partilhem do mesmo ambiente espaço-temporal. O uso dos
meios de comunicação proporciona assim novas formas de interacção que se
estendem no espaço (e talvez também no tempo), e que oferecem um leque de
características que as diferenciam das interacções face a face. O uso dos meios
de comunicação proporciona também novas formas de “acção a distância” que
permitem que indivíduos dirijam suas ações para outros, dispersos no espaço e
no tempo, como também responderem a ações e acontecimentos ocorridos em
ambientes distantes”.
Então, pode-se dizer, que as expressões “anytime and anywhere”
adquiriram um sentido próprio, projectaram os arrimos onde se assenta o ícone
da comunicação em nossos dias, onde as variáveis tempo e espaço, puderam
constituir-se como marcas identitárias para a diferenciação das modalidades que
caracterizariam a comunicação mediatizada. Enquanto o espaço produzia o
conceito de presencial, Sime-presencial e distância em contextos mediatizados,
o tempo de demora entre o envio e a recepção de uma mensagem produzia um dos
parâmetros utilizados para classificar as modalidades da comunicação mediada
por computador em síncronas e assíncronas. (A comunicação síncrona é estabelece
em tempo real, onde as mensagens trocadas entre o emissor e o receptor são
instantaneamente codificadas e portanto o feedback é momentâneo. Dito de forma
mais profunda, os dois agentes de comunicação sentem-se “corpo presente”. A
comunicação assíncrona efectiva-se em um espaço de tempo mais demorado e parece
existir um espaço de “tempo morto” entre o envio e consequente resposta da
mensagem).
Tendo estabelecido entre si um pacto
perfeito, o tempo e o espaço, conseguiram harmonizar-se para fazer da
comunicação mediada por computador algo aprazível, inusitado e peculiar. E, não
resta nenhuma dúvida que quanto mais sofisticada vai se tornando, mais espaço
vai ganhando, alterando significativamente o estilo de vida das pessoas no
mundo de hoje. Porque a juventude é o grosso da população mundial, um exemplo
fulminante são as chamadas redes sociais que nos interpela para novos conceitos
tanto de comunicação como de interacção social. Para uns são um espectáculo,
para outros, uma perdição. As mensagens instantâneas a as mensagens de texto,
rotulados de Tecnologias Socialmente Interactivas, estão a redefinir as redes
sociais na juventude de hoje. A rapidez e o baixo custo a elas associadas são
os grandes atractivos destas ferramentas, permitindo a manutenção e a criação
de novas redes sociais online. Admite-se que existem pontos de vistas que
alimentam discursos contraditórios nesta matéria, pois, enquanto uns defendem
que elas podem salvar os jovens do isolamento social e depressão, outros
amparam a posição de que o seu intenso uso promove comportamentos anti-sociais.
Tal como acontece com o uso de qualquer tecnologia, há uma variedade de
factores que afectam o modo como as tecnologias socialmente interactivas são
usadas quer a nível individual quer a nível de dinâmica de grupo. (Bryant,
Sanders-Jackson e Smallwood, 2006, online)
Sem se constituir, propósito primeiro,
atroçoar o mito do “olho no olho”, da “fala ao pé do ouvido”, do “sentir a
presença”, da“afectividade”, que legitima e preserva a dinastia do
“face-a-face, parece que esta vai se render aos encantos que da Comunicação
Mediada por Computador se dimana. É certo que, apesar dos grandes avanços tecnológicos,
existem alguns aspectos característicos da comunicação face-a-face que são
ainda difíceis de ser representados numa comunicação mediada por computador.
Como disse Oeiras e Rocha (2009, p.4), “A realidade possui
propriedades, filosoficamente chamadas de acidentes, como cor, forma, altura,
velocidade, textura, fonte de letras dentre outros, que nem sempre podem ser
representadas de maneira fácil e satisfatória”. Decerto, um dos grandes
objectivos das investigações neste campo tem por base o desenvolvimento de
aplicações tecnológicas que permitem uma aproximação mais possível de tais
representações. Segundo estes autores, “À medida que a
tecnologia evolui, novos programas são desenvolvidos com o objectivo de incluir
aspectos da comunicação face a face de maneira que a comunicação mediada pelo
computador possa ser satisfatória aos seus usuários”. (Oeiras e Rocha,
2009, p.6). E, de facto, ao tentar aproximar o mais possível da comunicação
face-a-face, está-se a dizer, por outras palavras, que se valoriza e se
reconhece a verdadeira força que esta comunicação representa em nossas vidas.
Um irrefutável exemplo é a elaboração, cada vez mais detalhada, dos emotions,
que oferece aos cibernautas uma sensação de presenciabilidade.
Não negamos, que existe um grande cepticismo
e um discurso alimentado em ideias fragmentadas, quanto á relação de
proximidade entre os interlocutores numa CMC. No dizer de Quintas-Mendes,
Morgado e Amante (2010, p.3,4), existem um conjunto de questões provenientes do
senso comum que colocam em causa “a possibilidade da
comunicação á distância e a comunicação interpessoal mediatizada”.
Contudo, vários são os estudos que, no
intento de desmistificar os estigmas enraizados nestes discursos herdados pelo
costume e pela observação empírica, um tanto quanto deslocados do contexto
actual, apontam resultados interessantes. No texto “Comunicação Mediatizada por
Computador e Educação Online: da Distância à Proximidade” de António
Quintas-Mendes, Lina Morgado e Lúcia Amante, texto e autores que vimos citando,
encontraremos descritos resultados de pesquisas que elucidam a eficácia da CMC,
e que transcrevemos, em excertos: (porém, para um olhar mais profundo sobre
esta questão recomendamos uma leitura integral deste artigo).
·“[…] dada uma quantidade de tempo e de
mensagens trocadas em número suficiente para a formação de impressões e para o
desenvolvimento relacional crescer, e desde que tudo o resto se mantenha igual,
a comunicação relacional em fases adiantadas de CMC e a comunicação face-a-face
serão equivalentes. De facto, os grupos CMC foram classificados pelos
observadores como tendo maiores níveis de comunicação relacional do que
os grupos face-a-face, independentemente do período temporal de
observação”. (Walther, 1992)
·“ […] a ausência de pistas não-verbais em
ambientes de comunicação mediada por computador pode de facto aumentar, e não
diminuir, a presença social em contextos de grupos”. (Rogers & Lea, 2005)
·“[…] participantes que não se podiam ver uns
aos outros se classificaram como muito parecidos entre si ao nível de
similaridade de atitudes e atractividade física e social”. (Chilcoat e DeWine,
1985)
Estes
“excertos” de resultados espelham de modo evidente as potencialidades desta modalidade
de comunicação. De facto, a valorização da comunicação mediada não é uma
questão de capricho nem de imposição. O mundo impõe novas regras de convivência
e de interacção social. A demanda das pessoas quanto ao acesso às redes de
comunicação é crescente e sua expansão irreversível. As pessoas começam a
sentir a necessidade de se conectarem ao mundo e um novo contexto de vida
social emerge em sintonia com as necessidades impostas pela sociedade de
consumo. É assim que Laymert Santos (2003) citado por Mendonça (2009, p.30)
narra essa passagem:
“Tudo se passa como se, graças ao fantástico
desenvolvimento da tecnologia, nosso velho mundo atual estivesse sendo
progressivamente abandonado em troca do mundo da realidade virtual. A crônica
das aplicações da eletrônica, da informática e das telecomunicações é um
registro dessa espécie de transferência que sectores inteiros da produção e da
vida social estão empreendendo rumo ao ciberespaço. Cada vez mais empresas e
indivíduos lidam com dados, informações e imagens que circulam pelas redes e
fazem disso a sua actividade principal”.

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