Depois de esmiuçar algumas
fontes, escrevendo e reescrevendo como quem apreende a formar a sua primeira
frase, disponibilizamos na nossa página no Elgg o seguinte texto:
Terá a comunicação face-a-face perdida a sua aura?
“O discurso
do olhar está presente em todas as relações e somos os únicos seres capazes de
olhar para dentro de nós mesmos”.
Ana Eleonora
Sebrão Assis
Havemos de concordar que certas asserções são
tão triviais que nem deveriam ser trazidas á lume. Uma delas é a de que o ser
humano precisa comunicar. É extraordinariamente impossível dissociar o homem do
acto de comunicar, porquanto a comunicação está para o ser humano tanto quanto
o próprio ar que respira. Sendo um ser iminentemente social, ele só se realiza
enquanto pessoa na relação que estabelece com o seu semelhante. Se atendermos
que o ângulo do nosso argumento se resume a uma relação exclusivamente social,
então teremos de concordar que a comunicação assume ser o impulsor do
desenvolvimento de suas capacidades criativas e de suas habilidades humanas na
construção do seu eu social, onde a relação de cooperação e de
compartilha afiguram-se como insignias de sua existência. Pelo que, a
comunicação constitui iniquivocamente a fonte primária e quiça “the one way”
para a criação de ambientes de intensa interação que nutre o umbigo da relação
humana. É no fluir desta ideia que o filosofo italiano Battista Mondin (1986)
produziu com eloquência o seguinte raciocínio: “o homem é um ser sociável,
pois tem a propensão para viver junto com os outros e comunicar-se com eles,
torná-los participantes das próprias experiências e dos próprios desejos,
conviver com eles as mesmas emoções e os mesmos bens”. ( Mondin, 1986
citado por Fortes, 2010). Então, se interação segnifica comunicar, o homem está
definitivamente condenado a comunicar-se.
De facto, a comunicação é um processo
continuo, inevitável e universal. Não se pode negar que a história da evolução
dos meios de comunicação se confunde com a própria história da existência do
homem. Os pré-históricos comunicaram através dos desenhos que faziam nas
paredes das cavernas. Os sumérios inventaram a escrita e mais tarde os egipios
criaram os Hieróglitos que foram usados pelas civilizações antigas. Os
Cretenses e os Finícios utilizavam pombos para envio de mensagens. Os chineses
inventaram o papel. No século XV Johannes Gutemberg inventou a imprensa,
possibilitando as pessoas o acesso a livros e jornais. No seculo XIX quando
Samuel Breese Morse inventou o telegráfo e descobriu que podia enviar mensagens
instântanas. Em 1876, Allexander Graham Bell inventou o telefone, em 1895
Guiliermo Marconi construiu o primeiro transmissor de rádio, em 1924 Jonh Logie
Baird transmitiu imagens estáticas através de um sistema mecânico de televisão
analogico, em 1954 foi difundida com reluglaridade imagens em movimento, em
1969 em pelna época da guerra fria foi inventada a internet. E, hoje no dialbar
do décimo terceiro ano do seculo XXI, estamos assistindo à fúria da World Wide
Web, inventada em 1995 por Tim Berners-Lee. Este longo e interessante percurso
foi asim resumido de modo interessante por Raimundo Souza Lopes (2007):
“ (…) Portanto, a comunicação atravessa
gritos e gestos, riscos e marcas, pinturas rupestres e pictográficas, ganha
espaço com a fala e a escrita, ultrapassa barreiras com o comercio e os
correios, impõe limites com suas leis escritas, cria mitos e lendas, se
emrequece culturamente com o teatro, a filosofia e a relegião, abre espaço para
o conhecimento através de suas bibliotecas, inventa o jornal e regista tudo
isso na história dos primeiros povos civilizados, com tudo que foi possivel
servir de substrato: pau, pedra, casca, cera, osso, pele, tecido, papiro,
pergaminho e papel”.
Ao debruçar-se sobre o estudo da comunicação,
fica evidente que, enquanto conceito, ela é extremamente complexo,
multidimensional e os seus estudos são muito antigos. (Cardoso, 2007, p.3.). O
próprio filósofo Aristoteles, no seculo III a.C. tinha iniciado o estudo da
comunicação interpessoal tendo sido dirigido a um público especifico. Os
Sofistas desenvolveram extensos estudos sobre a arte da comunicar, a retórica,
dando ênfase à transmissão da informação como um processo de persuasão com a
seguinte estrutura: um locutor, um discurso e um ouvinte (Triguueiro, 2001
citado por Cardoso, 2010, p.3.). Este modelo tricotomico Clássico, que veio de
Aristoteles foi assimilado por Shannon e Weaver, quando propuseram a famosa
teoria da Informação (Shannon e Weaver, 1949 citado por Cardoso 2007, p.3.).
Segundo este modelo uma comunicação só pode se efectivar se existir um emissor
de onde parte a iniciativa do acto de comunicar, um receptor que recebe a
inicativa e que por sua vez também faz o papel daquele, de modo que possa se
estabelecer um diálogo entre as duas partes, ou seja, a existencia de Feedback.
E, obviamente uma mensagem, o asunto que é tratado entre as duas partes.
Finalmente, para haver este feedback é necessário que haja um canal de
comunicação que é a via pela qual a mensagem é trocada.
Numa breve revisão da literatura notamos que
a palavra comunicação vem do latim communicare, que tem o significado de
trocar opiniões, partilhar, tornar comum, conferenciar. (Cardoso, 2007, p.4.).
Numa abordagem mais ampla, a comunicação é definida como sendo “um processo
de interacção social democrático baseado no intercâmbio de símbolos mediante os
quais os seres humanos compartilham voluntariamente as suas experiências sob
condições de acesso livre e igualitário, diálogo e participação”. (Beltran,
1981 citado por Cardoso 2007, p.4.).
Entretanto, nos dias que correm, com a
impressionante difusão com que as informações são vinculadas, através de
recurso às novas tecnologias de informação e de comunicação, torna-se objecto
de acesa discussão a pertinência desta “partilha voluntária de experiência,
diálogo e participação”. É que, nesta era digital, mostra-se evidente a
simpatia de que a comunicação mediada por computador tem granjeada e a
comunicação face-a-face parece já não ser a única que possibilitasse difundir
tais características. Num piscar de olhos, encontramos várias posições e
argumentos que, sem desconsiderar completamente esta última, confluem para a
sobrevalorização da primeira em detrimento da segunda. Portanto, a pergunta que
solta á vista, por agora, será: com a acelerada inovação tecnológica, principalmente
na área das tecnologias de informação e comunicação, terá a comunicação
face-a-face perdida a sua aura? Como questionou Sylvio José dos Santos Filho
(2007), Será que a verdadeira comunicação está ficando á beira do caminho?
No verbete“comunicação” da famosa
enciclopédia livre Wikipédia (2009), encontra-se definida a comunicação humana
como sendo “um processo que envolve a troca de informações, e utiliza os
sistemas simbólicoscomo suporte
para este fim. Estão envolvidos neste processo uma infinidade de maneiras de se
comunicar: duas pessoas tendo uma conversa face a face, ou através de gestos
com as mãos, mensagens enviadas utilizando a rede global de telecomunicações, a fala, a escritaque permitem
interagir com as outras pessoas e efectuar algum tipo de troca informacional”.
Porém, é escusado dizer que, com o surgimento
das novas tecnologias de informação e comunicação, com o advento da internet e
a difusão da world wide web, a ideia que se leva a crer é de que as formas
tradicionais de comunicação (face-a-face, carta, telegramas, etc.) foram
preteridas, outras até banidas, em face das novas e revolucionárias
configurações (e-mail, chat, fórum, videoconferências, etc.). Com efeito, no
seu texto intitulado “Comunicação face a face: uma tecnologia
esquecida”, Marcos Gross (2011) defende que, “encantados
com as promessas da tecnologia, esquecemos da comunicação do cotidiano e da
conversação face a face, que são as únicas que possibilitam aos interlocutores
se olharem directamente, trocarem ideias e compartilharem emoções, sem a
mediação de qualquer teclado ou mousse”.Continuando na defesa de sua tese a
favor da comunicação face-a-face e no confronto directo com as novas
tecnologias de comunicação, o autor remata que estas tem a grande faculdade de
aligeirar o envio e o recebimento de mensagens entre os colaboradores, e devido
às redes de comunicação digital, as decisões são tomadas rapidamente, contudo
alerta também pelo facto de estarmos perdendo o contacto com os outros. No seu
entender, “a mediação tecnológica está esfriando as relações humanas.
Estamos perdendo a sensibilidade de um olhar, de um aperto de mão e de uma
expressão corporal”. Do mesmo ponto de vista encontra-se as posições de
Boden e Molotch (1994), ao afirmarem que “a comunicação electrónica é menos
fiável e mais sujeita a interpretações ambíguas, abusos e confusões do que a
comunicação face a face. (Boden e Molotch, 1994 citado por Quintas-Mendes,
Morgado & Amante, 2010, p.3).
Na verdade, alguns autores consideram que a
comunicação face-a-face, pela própria natureza, dispõe de um conjunto de
características particulares que a torna fonte única e consequentemente propiciadora
de uma interacção humana sem igual. Contudo, estas características peculiares,
não são alvos de uma encenação inventada quanto mais forçada, é sim, fruto da
identidade da natureza humana e que sem as quais a comunicação não teria,
nestas circunstâncias, o mesmo brilho e a eloquência que tem. Há de facto uma
coordenação perfeita entre o olhar e expressão facial, deveras singular e
encantador. Para Vilhjálmsson & Cassel, (1998) citado por Oeiras e Rocha,
(2000):
“A interacção face a face dispõe de várias
modalidades que auxiliam direccionar a informação desejada para o interlocutor.
Algumas dessas modalidades incluem palavras faladas, entonação do discurso,
gestos com as mãos, postura do corpo, orientação, o olhar e expressão facial do
locutor. Por exemplo, para evidenciar que deseja a troca de turno, o
interlocutor pode dar pistas ao seu locutor através de gestos ou de expressões
faciais sem interromper o que o outro está tentando comunicar. As várias
modalidades podem trabalhar juntas suplementando ou complementando uma a outra
enfatizando pontos importantes, direccionando a atenção do interlocutor ou
simplesmente fornecendo informações adicionais”.
Quando pronunciava sobre a comunicação
face-a-face e as suas utilidades, tentando de certa forma diferenciar a
comunicação verbal da não-verbal, Stefanelli (1993) foi muito explícito ao
deixar transparecer que, “a dimensão não-verbal da comunicação envolve todas
as manifestações de comportamento não expressas por palavras, cuja significação
está vinculada ao contexto em que ocorrem”. O autor reforça a sua ideia
dizendo que “As expressões não- verbais podem ser utilizadas para
complementar, substituir ou contradizer a comunicação verbal, mas
principalmente para demonstrar sentimentos”. Esta observação, é bem
acolhida e faz todo o sentido no entender de Mário Heinen (2011), segundo o
qual “a comunicação não-verbal é mais efectiva, contudo é claro que
não se pode desprezar e/ou desconsiderar todas as outras formas de comunicação,
quer seja verbal ou não-verbal”.
De facto, quanto ao trabalho nas organizações
e o rendimento que se pode alcançar, alguns especialistas têm a percepção de
que a comunicação face-a-face é o único caminho para o sucesso. Esta percepção
é testemunhada nas palavras de Patrícia Bisp (2012), “A comunicação
face-a-face costuma ser o caminho mais eficaz para atravessar em segurança
períodos de grandes transformações – justamente, a principal característica da
época em que vivemos”. Seguindo o mesmo raciocínio, Catarina Brito (2012)
afirma que “Chega um momento em que precisamos sentar e conversar com as
pessoas, não importa o tempo de empresa ou de profissão que elas tenham. É
preciso falar claramente que para se trabalhar e termos um bom clima
organizacional". Na perspectiva da relação interpessoal e da interação
que se estabelece a nivel empresarial, os estudos apontam que “a comunicação
face a face dá mais credibilidade a informação, além de ser uma forma de
valorizar o funcionário e de prestigiar o interlocutor”. (Barros, Kudo & Lima, 2008).
O consultor de empresas Thomas J. Larkin,
numa entrevista concedida a Nara Damante (2005), aprofunda o seu
posicionamento, um discurso profundamente arraigado nesta forma de comunicar,
quando advoga com toda o elóquio que:
“A comunicação face a face, ao contrário das
mensagens compartilhadas pelos suportes tecnológicos, ainda é o mais rico e
eficaz sistema existente. A comunicação directa tem a capacidade de agregar um
conjunto de informações verbais e não-verbais que enriquecem a troca de
mensagens. Quando não nos permitimos vivenciar essa experiência, nos privamos
daquele intercâmbio vivo e directo que enriquece as relações entre as
pessoas…as tecnologias não comunicam, apenas divertem. As tecnologias são meios
de distracção e não para comunicar. A melhor comunicação é a face a face. As
tecnologias não têm um uso efectivo, um peso que faça diferença na comunicação.
A melhor comunicação é aquela informal, face a face”.
Num sobrevoo sobre o artigo intitulado
“Comunicação Mediada por Computador e Educação Online: da Distância à
Proximidade”, os autores e estudiosos da comunicação mediada por computador e
ensino online, António Quintas-Mendes, Lina Morgado& Lúcia Amante (2010)
fizeram uma abordagem muito interessante sobre o assunto e deixaram subsídios importantes
sobre a qualidade desta que é a forma mias elementar e primária de comunicação.
Mesmo defendendo a tese de que a comunicação mediada por computador pode
promover comportamentos de proximidade e afiliação, relacionamentos pessoais
positivos e ralações sociais intensas, não deixaram de reconhecer o valor da
comunicação face-a-face. Pelo que, para estes autores,
“O ser humano está preparado para relações
interpessoais intensas e próximas para que contribuem, em grande medida, o
rosto e as expressões faciais, o olhar, o sorriso, a postura do corpo, a
posição no espaço, os gestos ou a voz e a entoação. A importância do olhar e da
fixação do olhar é sobejamente conhecida; o contacto ocular permite o
estabelecimento de proximidade, intimidade e confiança mas também pode ser
utilizado em situações de insinceridade, medo, poder e controle”. (Quintas-Mendes, Morgado & Amante, 2010, p.2.).
A partir destas observações, pode-se dizer
com firmeza de que o nosso rosto está permanentemente se comunicando, pelo
sorriso, pelo olhar ou simplesmente pelo movimento da sobrancelha. Não é raro
ouvir-se de que os olhos são o espelho da alma, expressão da autoria do
poeta e escritor brasileiro Mário Quintana. Sem dúvida, o nosso olhar é uma
grande montra de mensagem. Ele é um álbum de fotografia da nossa alma. Colocado
sob observação atenta de um interlocutor, ele pode transmitir confiança,
respeito, paixão, amor, alegria e ao mesmo tempo que também pode transmitir
ódio, desconfiança, tristeza e antipatia. Um olhar mais abrangente e
elucidativo deste pensamento é descrito por Quintas-Mendes, Morgado &
Amante, (2010) na senda da dissertação que fizerem da abordagem proposta pelo
sociólogo G. Simmel (1950):
“O olhar, o olhar mútuo, um acontecimento
social único através do qual se estabeleceria a ligação e a conexão entre os
indivíduos. Simmel considerava que esta era, talvez ainda mais do que a
conversação falada, a interacção mais pura e directa que poderia haver. É o
olhar entre as pessoas que produz momentos de intimidade dado que não se pode
olhar sem ao mesmo tempo estar “a dar”; isto produz a mais completa
reciprocidade de pessoa para pessoa: o olhar é retribuído e a confiança pode
ser estabelecida e reproduzida tal como, aliás, a insinceridade ou a
desconfiança, a agressividade ou o ódio. Mas para além do olhar há numa
conversação face -a- face muitos outros índices que regulam a interacção entre
os sujeitos. Além do que é dito, a voz do falante fornece múltiplas pistas que
o ouvinte utiliza em atribuições, avaliações e formação de impressões”.
(Quintas-Mendes, Morgado & Amante, 2010, p.2.).
Fica evidente que a comunicação através do
olhar tem uma potencialidade extraordinária, ultrapassa a fronteira da simples
troca de informação para se submeter aos caprichos íntimos do ser humano, ou
seja, vai para além das simples palavras que se trocam para, com sinceridade,
funcionar como veículo de transmissão de sentimentos, de afectividade, despindo
completamente a máscara do nosso estado de espirito. Não raras vezes, ouvimos
pessoas amigas afirmarem que o olho no olho é a comunicação que não se engana.
Portanto, não se pode negar que existe um
verdadeiro sentimento de apego e uma grande dose de humanismo nesta forma de
comunicar. A comunicação face-a-face tem particularidades inatas, fazendo dela,
à partida, a condição “the first one” para a realização do homem enquanto ser
social. Assim, tentar responder a esta questão é trazer para o debate uma
complexa rede de fenómenos humanos, que tem na base de sustento um inimaginável
mundo de suspeições semelhantes, porém de respostas óbvias: Alguma vez existirá
Escolas sem alunos? E existirá alunos sem professores? Ou então: O homem alguma
vez deixará de comunicar-se?
Nenhum comentário:
Postar um comentário