quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Primeira reflexão

 

 


Depois de esmiuçar algumas fontes, escrevendo e reescrevendo como quem apreende a formar a sua primeira frase, disponibilizamos na nossa página no Elgg o seguinte texto:

Terá a comunicação face-a-face perdida a sua aura?

“O discurso do olhar está presente em todas as relações e somos os únicos seres capazes de olhar para dentro de nós mesmos”.

Ana Eleonora Sebrão Assis


Havemos de concordar que certas asserções são tão triviais que nem deveriam ser trazidas á lume. Uma delas é a de que o ser humano precisa comunicar. É extraordinariamente impossível dissociar o homem do acto de comunicar, porquanto a comunicação está para o ser humano tanto quanto o próprio ar que respira. Sendo um ser iminentemente social, ele só se realiza enquanto pessoa na relação que estabelece com o seu semelhante. Se atendermos que o ângulo do nosso argumento se resume a uma relação exclusivamente social, então teremos de concordar que a comunicação assume ser o impulsor do desenvolvimento de suas capacidades criativas e de suas habilidades humanas na construção do seu eu social, onde a relação de cooperação e de compartilha afiguram-se como insignias de sua existência. Pelo que, a comunicação constitui iniquivocamente a fonte primária e quiça “the one way” para a criação de ambientes de intensa interação que nutre o umbigo da relação humana. É no fluir desta ideia que o filosofo italiano Battista Mondin (1986) produziu com eloquência o seguinte raciocínio: “o homem é um ser sociável, pois tem a propensão para viver junto com os outros e comunicar-se com eles, torná-los participantes das próprias experiências e dos próprios desejos, conviver com eles as mesmas emoções e os mesmos bens”. ( Mondin, 1986 citado por Fortes, 2010). Então, se interação segnifica comunicar, o homem está definitivamente condenado a comunicar-se.

De facto, a comunicação é um processo continuo, inevitável e universal. Não se pode negar que a história da evolução dos meios de comunicação se confunde com a própria história da existência do homem. Os pré-históricos comunicaram através dos desenhos que faziam nas paredes das cavernas. Os sumérios inventaram a escrita e mais tarde os egipios criaram os Hieróglitos que foram usados pelas civilizações antigas. Os Cretenses e os Finícios utilizavam pombos para envio de mensagens. Os chineses inventaram o papel. No século XV Johannes Gutemberg inventou a imprensa, possibilitando as pessoas o acesso a livros e jornais. No seculo XIX quando Samuel Breese Morse inventou o telegráfo e descobriu que podia enviar mensagens instântanas. Em 1876, Allexander Graham Bell inventou o telefone, em 1895 Guiliermo Marconi construiu o primeiro transmissor de rádio, em 1924 Jonh Logie Baird transmitiu imagens estáticas através de um sistema mecânico de televisão analogico, em 1954 foi difundida com reluglaridade imagens em movimento, em 1969 em pelna época da guerra fria foi inventada a internet. E, hoje no dialbar do décimo terceiro ano do seculo XXI, estamos assistindo à fúria da World Wide Web, inventada em 1995 por Tim Berners-Lee. Este longo e interessante percurso foi asim resumido de modo interessante por Raimundo Souza Lopes (2007):

“ (…) Portanto, a comunicação atravessa gritos e gestos, riscos e marcas, pinturas rupestres e pictográficas, ganha espaço com a fala e a escrita, ultrapassa barreiras com o comercio e os correios, impõe limites com suas leis escritas, cria mitos e lendas, se emrequece culturamente com o teatro, a filosofia e a relegião, abre espaço para o conhecimento através de suas bibliotecas, inventa o jornal e regista tudo isso na história dos primeiros povos civilizados, com tudo que foi possivel servir de substrato: pau, pedra, casca, cera, osso, pele, tecido, papiro, pergaminho e papel”.

Ao debruçar-se sobre o estudo da comunicação, fica evidente que, enquanto conceito, ela é extremamente complexo, multidimensional e os seus estudos são muito antigos. (Cardoso, 2007, p.3.). O próprio filósofo Aristoteles, no seculo III a.C. tinha iniciado o estudo da comunicação interpessoal tendo sido dirigido a um público especifico. Os Sofistas desenvolveram extensos estudos sobre a arte da comunicar, a retórica, dando ênfase à transmissão da informação como um processo de persuasão com a seguinte estrutura: um locutor, um discurso e um ouvinte (Triguueiro, 2001 citado por Cardoso, 2010, p.3.). Este modelo tricotomico Clássico, que veio de Aristoteles foi assimilado por Shannon e Weaver, quando propuseram a famosa teoria da Informação (Shannon e Weaver, 1949 citado por Cardoso 2007, p.3.). Segundo este modelo uma comunicação só pode se efectivar se existir um emissor de onde parte a iniciativa do acto de comunicar, um receptor que recebe a inicativa e que por sua vez também faz o papel daquele, de modo que possa se estabelecer um diálogo entre as duas partes, ou seja, a existencia de Feedback. E, obviamente uma mensagem, o asunto que é tratado entre as duas partes. Finalmente, para haver este feedback é necessário que haja um canal de comunicação que é a via pela qual a mensagem é trocada.

Numa breve revisão da literatura notamos que a palavra comunicação vem do latim communicare, que tem o significado de trocar opiniões, partilhar, tornar comum, conferenciar. (Cardoso, 2007, p.4.). Numa abordagem mais ampla, a comunicação é definida como sendo “um processo de interacção social democrático baseado no intercâmbio de símbolos mediante os quais os seres humanos compartilham voluntariamente as suas experiências sob condições de acesso livre e igualitário, diálogo e participação”. (Beltran, 1981 citado por Cardoso 2007, p.4.).

Entretanto, nos dias que correm, com a impressionante difusão com que as informações são vinculadas, através de recurso às novas tecnologias de informação e de comunicação, torna-se objecto de acesa discussão a pertinência desta “partilha voluntária de experiência, diálogo e participação”. É que, nesta era digital, mostra-se evidente a simpatia de que a comunicação mediada por computador tem granjeada e a comunicação face-a-face parece já não ser a única que possibilitasse difundir tais características. Num piscar de olhos, encontramos várias posições e argumentos que, sem desconsiderar completamente esta última, confluem para a sobrevalorização da primeira em detrimento da segunda. Portanto, a pergunta que solta á vista, por agora, será: com a acelerada inovação tecnológica, principalmente na área das tecnologias de informação e comunicação, terá a comunicação face-a-face perdida a sua aura? Como questionou Sylvio José dos Santos Filho (2007), Será que a verdadeira comunicação está ficando á beira do caminho?

No verbete“comunicação” da famosa enciclopédia livre Wikipédia (2009), encontra-se definida a comunicação humana como sendo “um processo que envolve a troca de informações, e utiliza os sistemas simbólicoscomo suporte para este fim. Estão envolvidos neste processo uma infinidade de maneiras de se comunicar: duas pessoas tendo uma conversa face a face, ou através de gestos com as mãos, mensagens enviadas utilizando a rede global de telecomunicações, a fala, a escritaque permitem interagir com as outras pessoas e efectuar algum tipo de troca informacional”.

Porém, é escusado dizer que, com o surgimento das novas tecnologias de informação e comunicação, com o advento da internet e a difusão da world wide web, a ideia que se leva a crer é de que as formas tradicionais de comunicação (face-a-face, carta, telegramas, etc.) foram preteridas, outras até banidas, em face das novas e revolucionárias configurações (e-mail, chat, fórum, videoconferências, etc.). Com efeito, no seu texto intitulado “Comunicação face a face: uma tecnologia esquecida, Marcos Gross (2011) defende que, “encantados com as promessas da tecnologia, esquecemos da comunicação do cotidiano e da conversação face a face, que são as únicas que possibilitam aos interlocutores se olharem directamente, trocarem ideias e compartilharem emoções, sem a mediação de qualquer teclado ou mousse”.Continuando na defesa de sua tese a favor da comunicação face-a-face e no confronto directo com as novas tecnologias de comunicação, o autor remata que estas tem a grande faculdade de aligeirar o envio e o recebimento de mensagens entre os colaboradores, e devido às redes de comunicação digital, as decisões são tomadas rapidamente, contudo alerta também pelo facto de estarmos perdendo o contacto com os outros. No seu entender, “a mediação tecnológica está esfriando as relações humanas. Estamos perdendo a sensibilidade de um olhar, de um aperto de mão e de uma expressão corporal”. Do mesmo ponto de vista encontra-se as posições de Boden e Molotch (1994), ao afirmarem que “a comunicação electrónica é menos fiável e mais sujeita a interpretações ambíguas, abusos e confusões do que a comunicação face a face. (Boden e Molotch, 1994 citado por Quintas-Mendes, Morgado & Amante, 2010, p.3).

Na verdade, alguns autores consideram que a comunicação face-a-face, pela própria natureza, dispõe de um conjunto de características particulares que a torna fonte única e consequentemente propiciadora de uma interacção humana sem igual. Contudo, estas características peculiares, não são alvos de uma encenação inventada quanto mais forçada, é sim, fruto da identidade da natureza humana e que sem as quais a comunicação não teria, nestas circunstâncias, o mesmo brilho e a eloquência que tem. Há de facto uma coordenação perfeita entre o olhar e expressão facial, deveras singular e encantador. Para Vilhjálmsson & Cassel, (1998) citado por Oeiras e Rocha, (2000):

“A interacção face a face dispõe de várias modalidades que auxiliam direccionar a informação desejada para o interlocutor. Algumas dessas modalidades incluem palavras faladas, entonação do discurso, gestos com as mãos, postura do corpo, orientação, o olhar e expressão facial do locutor. Por exemplo, para evidenciar que deseja a troca de turno, o interlocutor pode dar pistas ao seu locutor através de gestos ou de expressões faciais sem interromper o que o outro está tentando comunicar. As várias modalidades podem trabalhar juntas suplementando ou complementando uma a outra enfatizando pontos importantes, direccionando a atenção do interlocutor ou simplesmente fornecendo informações adicionais”.

Quando pronunciava sobre a comunicação face-a-face e as suas utilidades, tentando de certa forma diferenciar a comunicação verbal da não-verbal, Stefanelli (1993) foi muito explícito ao deixar transparecer que, “a dimensão não-verbal da comunicação envolve todas as manifestações de comportamento não expressas por palavras, cuja significação está vinculada ao contexto em que ocorrem”. O autor reforça a sua ideia dizendo que “As expressões não- verbais podem ser utilizadas para complementar, substituir ou contradizer a comunicação verbal, mas principalmente para demonstrar sentimentos”. Esta observação, é bem acolhida e faz todo o sentido no entender de Mário Heinen (2011), segundo o qual “a comunicação não-verbal é mais efectiva, contudo é claro que não se pode desprezar e/ou desconsiderar todas as outras formas de comunicação, quer seja verbal ou não-verbal”.

De facto, quanto ao trabalho nas organizações e o rendimento que se pode alcançar, alguns especialistas têm a percepção de que a comunicação face-a-face é o único caminho para o sucesso. Esta percepção é testemunhada nas palavras de Patrícia Bisp (2012), “A comunicação face-a-face costuma ser o caminho mais eficaz para atravessar em segurança períodos de grandes transformações – justamente, a principal característica da época em que vivemos”. Seguindo o mesmo raciocínio, Catarina Brito (2012) afirma que “Chega um momento em que precisamos sentar e conversar com as pessoas, não importa o tempo de empresa ou de profissão que elas tenham. É preciso falar claramente que para se trabalhar e termos um bom clima organizacional". Na perspectiva da relação interpessoal e da interação que se estabelece a nivel empresarial, os estudos apontam que “a comunicação face a face dá mais credibilidade a informação, além de ser uma forma de valorizar o funcionário e de prestigiar o interlocutor”. (Barros, Kudo & Lima, 2008).

O consultor de empresas Thomas J. Larkin, numa entrevista concedida a Nara Damante (2005), aprofunda o seu posicionamento, um discurso profundamente arraigado nesta forma de comunicar, quando advoga com toda o elóquio que:

“A comunicação face a face, ao contrário das mensagens compartilhadas pelos suportes tecnológicos, ainda é o mais rico e eficaz sistema existente. A comunicação directa tem a capacidade de agregar um conjunto de informações verbais e não-verbais que enriquecem a troca de mensagens. Quando não nos permitimos vivenciar essa experiência, nos privamos daquele intercâmbio vivo e directo que enriquece as relações entre as pessoas…as tecnologias não comunicam, apenas divertem. As tecnologias são meios de distracção e não para comunicar. A melhor comunicação é a face a face. As tecnologias não têm um uso efectivo, um peso que faça diferença na comunicação. A melhor comunicação é aquela informal, face a face”.

Num sobrevoo sobre o artigo intitulado “Comunicação Mediada por Computador e Educação Online: da Distância à Proximidade”, os autores e estudiosos da comunicação mediada por computador e ensino online, António Quintas-Mendes, Lina Morgado& Lúcia Amante (2010) fizeram uma abordagem muito interessante sobre o assunto e deixaram subsídios importantes sobre a qualidade desta que é a forma mias elementar e primária de comunicação. Mesmo defendendo a tese de que a comunicação mediada por computador pode promover comportamentos de proximidade e afiliação, relacionamentos pessoais positivos e ralações sociais intensas, não deixaram de reconhecer o valor da comunicação face-a-face. Pelo que, para estes autores,

“O ser humano está preparado para relações interpessoais intensas e próximas para que contribuem, em grande medida, o rosto e as expressões faciais, o olhar, o sorriso, a postura do corpo, a posição no espaço, os gestos ou a voz e a entoação. A importância do olhar e da fixação do olhar é sobejamente conhecida; o contacto ocular permite o estabelecimento de proximidade, intimidade e confiança mas também pode ser utilizado em situações de insinceridade, medo, poder e controle”. (Quintas-Mendes, Morgado & Amante, 2010, p.2.).

A partir destas observações, pode-se dizer com firmeza de que o nosso rosto está permanentemente se comunicando, pelo sorriso, pelo olhar ou simplesmente pelo movimento da sobrancelha. Não é raro ouvir-se de que os olhos são o espelho da alma, expressão da autoria do poeta e escritor brasileiro Mário Quintana. Sem dúvida, o nosso olhar é uma grande montra de mensagem. Ele é um álbum de fotografia da nossa alma. Colocado sob observação atenta de um interlocutor, ele pode transmitir confiança, respeito, paixão, amor, alegria e ao mesmo tempo que também pode transmitir ódio, desconfiança, tristeza e antipatia. Um olhar mais abrangente e elucidativo deste pensamento é descrito por Quintas-Mendes, Morgado & Amante, (2010) na senda da dissertação que fizerem da abordagem proposta pelo sociólogo G. Simmel (1950):

“O olhar, o olhar mútuo, um acontecimento social único através do qual se estabeleceria a ligação e a conexão entre os indivíduos. Simmel considerava que esta era, talvez ainda mais do que a conversação falada, a interacção mais pura e directa que poderia haver. É o olhar entre as pessoas que produz momentos de intimidade dado que não se pode olhar sem ao mesmo tempo estar “a dar”; isto produz a mais completa reciprocidade de pessoa para pessoa: o olhar é retribuído e a confiança pode ser estabelecida e reproduzida tal como, aliás, a insinceridade ou a desconfiança, a agressividade ou o ódio. Mas para além do olhar há numa conversação face -a- face muitos outros índices que regulam a interacção entre os sujeitos. Além do que é dito, a voz do falante fornece múltiplas pistas que o ouvinte utiliza em atribuições, avaliações e formação de impressões”. (Quintas-Mendes, Morgado & Amante, 2010, p.2.).

Fica evidente que a comunicação através do olhar tem uma potencialidade extraordinária, ultrapassa a fronteira da simples troca de informação para se submeter aos caprichos íntimos do ser humano, ou seja, vai para além das simples palavras que se trocam para, com sinceridade, funcionar como veículo de transmissão de sentimentos, de afectividade, despindo completamente a máscara do nosso estado de espirito. Não raras vezes, ouvimos pessoas amigas afirmarem que o olho no olho é a comunicação que não se engana.

Portanto, não se pode negar que existe um verdadeiro sentimento de apego e uma grande dose de humanismo nesta forma de comunicar. A comunicação face-a-face tem particularidades inatas, fazendo dela, à partida, a condição “the first one” para a realização do homem enquanto ser social. Assim, tentar responder a esta questão é trazer para o debate uma complexa rede de fenómenos humanos, que tem na base de sustento um inimaginável mundo de suspeições semelhantes, porém de respostas óbvias: Alguma vez existirá Escolas sem alunos? E existirá alunos sem professores? Ou então: O homem alguma vez deixará de comunicar-se?

 José Cruz e Silva


 

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